Para Veja, a realidade não existe

Carta Maior – Publicado 03/04/2015

Nota de gadu.org: Para nosotros, los masones, la libertad de expresión del pensamiento debe ser una realidad todos los días del año, no sólo el 20 de septiembre. Es por ello que publicamos esta nueva versión brasileña sobre lo informado por la revista Veja que fue ampliamente difundido, hace pocos días, en Argentina, Uruguay y Brasil.

 

A Veja publicou denúncias contra o filho de Cristina Kirchner e a atual embaixadora argentina na OEA sem nenhuma prova e sem dar direito de resposta.

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A revista Veja se transformou num operador internacional que, além de atacar o PT no Brasil, também tem o governo argentino, liderado por Cristina Kirchner, em sua mira. Dois artigos da revista foram publicados esta semana, com denúncias de supostas contas multimilionárias de Máximo Kirchner, filho de Cristina, e de Nilda Garré, sua ex-ministra de Segurança, hoje embaixadora na OEA (Organização de Estados Americanos), e rapidamente repercutidos pelos meios ligados ao Clarín, a Globo da Argentina, que promove uma violenta campanha midiática para deteriorar o governo visando as eleições presidenciais de outubro.

No dia 30 de março, uma segunda-feira, o jornalista Leonardo Coutinho, da Veja, escreveu que “Máximo Kirchner havia sido co-titular de contas milionárias nos Estados Unidos e nas Ilhas Cayman”. Coutinho cita uma fonte anônima, dizendo se tratar de um especialista norte-americano em investigações financeiras, que oferece um assombroso nível de detalhe sobre a conta do filho da presidenta argentina, que teria, em 2010, um saldo de 41,7 milhões de dólares, segundo o jornalista. “A primeira conta, de número 00049859852398325985, foi aberta em outubro de 2005 no Felton Bank, um banco americano, em nome da empresa Business andServices IBC, com sede no paraíso fiscal de Belize. Os donos da offshore eram Nilda Celia Garré, Henry Olaf Aaset e Máximo Carlos Kirchner”, diz o texto de Coutinho.

É lógico pensar que se alguém possui dados tão precisos tem que saber do que está falando, ainda mais quando, pouco depois, apresenta uma segunda conta, com o mesmo grau de detalhismo. “A segunda conta, de número 0004496857463059686359385, foi aberta em dezembro de 2006 a partir de Luxemburgo, na Europa, no Morval Bank & Trust Ltd., com sede nas Ilhas Cayman. Os correntistas eram Nilda Celia Garré, Maria Paula Abal Medina (filha de Nilda) e Máximo Carlos Kirchner. O saldo em abril de 2010 era de 19,8 milhões de dólares”.

Entretanto, o texto de Coutinho está cheio de condicionais e tem uma espécie de desmentido já no terceiro parágrafo, quando admite que “não foi possível confirmar de forma independente quem são os titulares dessas contas”. Para a imprensa argentina, esse detalhe não importou muito. Na mesma segunda-feira, a página do portal Clarín denunciava as contas de Máximo Kirchner, com chamadas falando sobre “a rota de dinheiro K” ou a “corrupção K”, duas denominações que vem sendo usadas há pelo menos quatro anos, como parte de sua estratégia de perseguição e desgaste do governo. Na quinta-feira (2/4), o semanário Noticias, de outro grupo editorial opositor, trouxe na capa uma montagem de mostrando Máximo Kirchner algemado, como um delinquente comum, com o título “A foto mais temida por Cristina”

A conexão estadunidense

A estratégia midiática é a de acosso permanente, abrindo todas as frentes possíveis e tecendo uma rede internacional de alianças.

Semanas atrás, no dia 18 de março, Coutinho publicou um informe escrito pelo Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, de iniciativa da direita republicana. Uns três dias antes, o mesmo jornalista denunciou na Veja que três ex-membros do governo de Chávez, que buscavam asilo nos Estados Unidos e cujos nomes não revelariam, supostamente por temer represálias, haviam denunciado um complô argentino-venezuelano-iraniano, que mesclava, como numa ótima trama de James Bond, dinheiro, sexo, armas nucleares e ditadores sul-americanos e muçulmanos num plano obscuro de dominação. O núcleo da denúncia era que o dinheiro das contas da ex-ministra Nilda Garré no banco Felton, nas Ilhas Cayman e em Luxemburgo provinham de fundos iranianos, que pagavam a Argentina pela suposta ajuda com seu programa nuclear militar.

Veja dá a entender que Garré não só foi seduzida pelo dinheiro, mas que também sucumbiu aos encantos fálicos de Hugo Chávez. “Era algo na linha ´50 Tons de Cinza´, diz o ex-funcionário chavista. De acordo com ele, quando Chávez e Garré se encontravam no gabinete do líder venezuelano, no Palácio de Miraflores, os sons da festa podiam ser ouvidos de longe.

Seguindo a mesma toada, a revista apresenta o seguinte diálogo, que parece ter saído de um roteiro de filme de mocinho e bandido: “um militar que testemunhou a reunião relatou à Veja o diálogo que se seguiu:

Ahmadinejad – É um assunto de vida ou morte. Preciso que intermedeie junto à Argentina uma ajuda para o programa nuclear de meu país. Precisamos que a Argentina compartilhe conosco a tecnologia nuclear. Sem a colaboração do país, será impossível avançar em nosso programa.

Chávez – Muito rapidamente. Farei isso, companheiro.

Ahmadinejad – Não se preocupe com os custos envolvidos nessa operação. O Irã respaldará com todo o dinheiro necessário para convencer os argentinos. Tem outra questão. Preciso que você desmotive a Argentina a continuar insistindo com a Interpol para que prenda autoridades de meu país”.

A realidade não existe

Não importa o fato de que, na época em que aconteceram os supostos fatos relatados por Coutinho, Cristina Kirchner estivesse dando duríssimos discursos de denúncia contra o Irã nas Nações Unidos, quando havia recém assumido seu primeiro mandato como presidenta, em dezembro de 2007. Tampouco explica como o pagamento se realizou em 2005 através do Memorando de Entendimento com o Irã, que só seria assinado em 2013 – é um caso único no mundo em que se paga um suborno multimilionário com oito anos de antecipação.

Também não interessa o fato de que Nilda Garré tenha solicitado direito de resposta à revista Veja, e que essa tenha se negado a lhe conceder esse direito. “Nunca tive uma conta em nenhum país estrangeiro. A única que conta que tive e ainda tenho é a do Banco Nación, através da qual recebo meu salário de embaixadora. Vou solicitar uma audiência com autoridades bancárias de Delaware, já que o Felton Bank foi absorvido pelo banco CNB nesse estado, e vou registrar uma queixa pelo fato de que nunca tive conta nesse banco”, afirmou Garré.

Mas nada disso interessa, porque o Clarín, a Veja e a direita republicana citam uns aos outros como fontes, numa triangulação usada para confirmar suas denúncias, uma aliança conveniente para todos. Nos Estados Unidos, a direita está furiosa com a negociação que os Estados Unidos promove com o Irã sobre o seu programa nuclear, e quer demonstrar que está invadindo o “pátio traseiro” norte-americano: Argentina, Brasil e Venezuela. Por sua parte, Clarín e Veja sabem que qualquer ataque contra Cristina Kirchner pode refletir indiretamente em Dilma Rousseff e vice-versa: tudo o que vier é lucro.

O que importa é produzir manchetes de efeito, e capas de revista. Na Argentina, o Clarín e a oposição estão desesperados, porque Alberto Nisman, aquele mesmo promotor que apareceu morto em seu apartamento, em janeiro, um dia antes de comparecer perante o Congresso para denunciar um acordo secreto entre o governo argentino e o Irã, deixou de ser o herói de Hollywood para ser um farsante de voudeville.

Nas últimas semanas, duas instâncias da Justiça argentina rejeitaram as denúncias formuladas pelo promotor, com termos duríssimos (“carente de qualquer fundamento”, “implicante”, “fora da realidade”). Além disso, também vieram a tona outras facetas de Nisman que estão longe de ser o exemplo de coragem e civismo que se tentou mostrar anteriormente: contratava call girls, gastava dinheiro público em viagens para Cancún acompanhado de belas e caras senhoritas, tinha uma conta de 600 mil dólares no exterior, e, principalmente, o fato de que embolsava metade do altíssimo salário de Diego Lagomarsino, o mesmo auxiliar de informática que lhe passou a arma com a qual se produziu a sua morte. (ver fotos de Nisman com call girls aqui)

Aos poucos, o Clarín vai abandonando o Caso Nisman, mas não sem deixar de denunciar uma suposta campanha de demonização da imagem do falecido promotor. A história já produziu o efeito que a empresa esperava: instalar a ideia de um governo inescrupuloso que pode chegar até as últimas consequências. No dia 18 de fevereiro, houve uma grande marcha opositora para pedir o esclarecimento de sua morte. Muitos dos que foram a essa marcha de boa fé, agora, se resistem ao fato de que apoiaram uma farsa. “Não pode ser. Existe algo estranho. De qualquer forma, eu acho que o governo tem que ter feito algo, tinha interesses  envolvidos nesse assunto”, me confessou, esta semana, um economista que participou da marcha.

Sendo efetiva na produção desse tipo de impacto no eleitorado, está claro que a campanha da dupla Clarín-Veja terá novos capítulos em breve.

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